ESTILO DE ESCRITA



Quando lemos a Bíblia, especialmente os relatos mais antigos, é comum cairmos na tentação de interpretar tudo como uma sequência cronológica exata de acontecimentos. No entanto, nem sempre os autores bíblicos escreviam dessa forma. Em muitos casos, o texto apresenta primeiro um panorama geral dos fatos e, somente depois, retorna para explicar com mais detalhes como eles aconteceram. Além disso, nem sempre é possível saber quanto tempo se passou entre um versículo e outro, já que o narrador frequentemente resume longos períodos em poucas linhas, o que pode levar o leitor moderno a assumir uma cronologia que talvez não estivesse na intenção do autor.

Neste artigo, vou analisar três passagens de Gênesis que parecem seguir esse padrão narrativo. O objetivo não é discutir doutrinas, defender correntes teológicas ou propor novas interpretações religiosas, mas observar o texto a partir do próprio texto, considerando os elementos textuais que o próprio texto apresenta. Ao fazer isso, veremos que algumas dificuldades de leitura podem ser melhor compreendidas quando consideramos a forma como os autores antigos organizavam suas narrativas.

Obs.: A menos que haja outra indicação, os textos bíblicos usados aqui são extraídos da versão ACF - Almeida Corrigida Fiel, publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

SEÇÃO 1 - Gênesis 1 e 2

O primeiro exemplo desse padrão pode ser observado nos capítulos 1 e 2 de Gênesis. O capítulo 1 apresenta um relato amplo da criação, organizado em dias e abrangendo desde a formação dos céus e da terra até a criação da humanidade.

Dia 1 (vs. 1-5)
- Criação da luz;
- Separação entre luz e trevas (dia e noite).

Dia 2 (vs. 6-8)
- Criação da expansão (céu);
- Separação entre aguas acima e abaixo da expansão.

Dia 3 (vs. 9-13)
- Organização ou separação entre águas (mares) e a "porção seca";
- Criação da vida vegetal.

Dia 4 (vs. 14-19)
- Criação dos astros: "luminar maior" (sol), "luminar menor" (lua) e as estrelas.

Dia 5 (vs. 20-23)
- Criação da vida animal marinha, répteis (sobre a terra) e aves

Dia 6 (vs. 24-31)
- Criação da vida animal terrestre;
- Criação da humanidade.

Ao chegar ao capítulo 2, o texto parece mudar de perspectiva. Em vez de continuar ampliando o relato da criação, o narrador passa a concentrar sua atenção especificamente na vegetação, no homem e na mulher.

Para visualizar esse possível movimento de ampliação e detalhamento, vou intercalar alguns trechos do capítulo 1 e 2 de maneira que possamos lê-los de forma contínua e não separadas como na bíblia. O texto do capítulo 1 aparecerá de azul e o texto do capítulo 2 aparecerá de verde:

Capítulo 2:5-6 / 1:11-13
"...ainda o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrar a terra. Um vapor, porém, subia da terra, e regava toda a face da terra."

"E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro."

Capítulo 1:26 / 2:7-9, 15-18, 21-25 /  1:27-30
"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra."

"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal."

"E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele."

"Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam."

"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi."

Após observar esses textos, é possível notar como o capítulo 2 parece preencher informações que não haviam sido desenvolvidas no capítulo 1.

Em Gênesis 1:11, Deus ordena que a terra produza vegetação. Já em Gênesis 2:5-6, o narrador acrescenta informações sobre as condições da terra naquele momento, mencionando que ainda não havia chuva e que não existia homem para lavrar o solo. Embora o texto não apresente isso necessariamente como uma explicação direta para os eventos do capítulo 1, a passagem oferece detalhes adicionais que ajudam a compor o cenário da criação.

Algo semelhante acontece com a criação da humanidade. Em Gênesis 1:26-27, a criação do homem e da mulher é descrita de forma breve:

"E criou Deus o homem à sua imagem; 
à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."

Já o capítulo 2 amplia essa informação, descrevendo a formação do homem a partir do pó da terra, sua colocação no jardim do Éden e, posteriormente, a criação da mulher a partir da costela do homem.

O padrão que parece emergir é o seguinte:
  • Gênesis 1 apresenta uma visão geral da criação;
  • Gênesis 2 retorna a alguns desses eventos e desenvolve seus detalhes.
Isso não significa que todos os leitores ou estudiosos concordem quanto à relação entre os dois capítulos. No meio acadêmico, existe um amplo debate sobre sua composição e origem.

A partir de análises linguísticas e literárias do texto hebraico, alguns pesquisadores entendem que Gênesis 1 e Gênesis 2 seriam relatos originalmente independentes, provenientes de tradições distintas e posteriormente reunidos em uma única obra. Entre os argumentos mais citados estão:
  • diferenças de estilo literário;
  • diferenças de vocabulário;
  • uso de nomes divinos distintos;
  • diferenças na organização narrativa de alguns eventos.
Autores como Julius Wellhausen, Claus Westermann e Richard Friedman discutem essa hipótese em suas pesquisas.

Independentemente das origens literárias diversas das fontes, muitos estudiosos reconhecem que o redator final organizou o texto de forma que o leitor possa ler Gn 2 como um aprofundamento de Gn 1.

Seção 2 — Caim e Abel

Este talvez seja um dos exemplos mais debatidos de Gênesis.

Os versículos 1 e 2 do capítulo 4 narram o nascimento de Caim e Abel. Quando o relato é lido como uma cronologia rigorosa, pode surgir a impressão de que naquele momento existiam apenas quatro pessoas no mundo: Adão, Eva, Caim e Abel. Entretanto, o texto nunca afirma isso explicitamente. Pelo contrário, alguns detalhes parecem indicar a existência de outras pessoas. Após ser amaldiçoado por Deus, Caim declara:

"...todo aquele que me achar, me matará." - (Gn 4:14)

A preocupação de Caim sugere que existiam outras pessoas capazes de encontrá-lo e feri-lo. Em seguida, Deus responde que poria um sinal em Caim afim de que quem o achasse, não ferisse. (Gn 4:15) Mais uma vez, a narrativa trata a possibilidade da existência de outras pessoas além de Adão, Eva, Caim e Abel, como algo plausível.

É natural e legítimo que o leitor se pergunte de onde surge a mulher de Caim mencionada no versículo 17. Uma possível resposta aparece apenas no capítulo seguinte. Em Gênesis 5:4 lemos que Adão "gerou filhos e filhas". Embora o texto não informe quantos eram nem quando nasceram, ele deixa claro que Caim e Abel não foram os únicos descendentes de Adão e Eva.

Esse dado permite uma leitura na qual a esposa de Caim seria uma irmã, sobrinha ou outra parente próxima pertencente à mesma família.

Por outro lado, alguns pesquisadores defendem outra possibilidade. Segundo essa interpretação, a narrativa preservaria vestígios de tradições mais antigas nas quais já existiam populações humanas além da família imediata de Adão e Eva. Nessa leitura, o medo de Caim e a existência de sua esposa seriam indícios de que diferentes tradições foram incorporadas ao texto ao longo de sua formação.

Entretanto, é importante notar que essa hipótese depende de reconstruções históricas e literárias. O texto, por si só, não afirma explicitamente a existência de uma população humana independente da descendência de Adão e Eva.

Assim, ao observar apenas os elementos apresentados pela própria narrativa, é possível perceber um padrão semelhante ao analisado na seção anterior. O capítulo 4 concentra sua atenção nos acontecimentos envolvendo Caim e Abel, enquanto informações que ajudam a compreender detalhes da narrativa aparecem posteriormente. Mais uma vez encontramos uma estrutura em que o relato apresenta primeiro os acontecimentos principais e só depois fornece elementos que ajudam a preencher algumas lacunas deixadas pelo próprio texto.

Como curiosidade, vale observar uma das interpretações tradicionais encontradas no judaísmo rabínico.

No influente comentário do rabino Rashi sobre Gênesis, reproduzido em edições do Chumash Bereshit, a questão da esposa de Caim é resolvida por meio de uma tradição interpretativa segundo a qual Eva teria dado à luz não apenas a Caim e Abel, mas também irmãs gêmeas.

Segundo essa interpretação, Caim nasceu acompanhado de uma irmã gêmea, enquanto Abel nasceu acompanhado de duas irmãs gêmeas. Mais tarde, os irmãos teriam se casado com essas irmãs, possibilitando a continuidade da humanidade.

Comentando Gênesis 4:17, Rashi afirma que a mulher de Caim era sua irmã gêmea.

É importante notar que esses detalhes não aparecem explicitamente no texto bíblico. Eles pertencem à tradição interpretativa judaica desenvolvida ao longo dos séculos para responder questões que o relato deixa em aberto, como a origem da esposa de Caim e o crescimento da população humana.

Independentemente de concordar ou não com essa interpretação, é interessante perceber como ela ilustra a forma como diferentes comunidades e tradições procuram preencher as lacunas deixadas pela narrativa. Enquanto alguns leitores preferem limitar suas conclusões ao que está explicitamente escrito no texto, outros recorrem a tradições interpretativas preservadas ao longo das gerações para explicar pontos que a narrativa não desenvolve em detalhes.

SEÇÃO 3 - A Torre de Babel

Mesmo pessoas que não são religiosas provavelmente já ouviram falar da Torre de Babel e da ideia de que diferentes idiomas surgiram a partir desse episódio. Além do aspecto culturalmente conhecido, o relato também é interessante do ponto de vista narrativo, porque apresenta novamente um padrão de panorama geral seguido de detalhamento posterior.

O capítulo 11 de Gênesis, que narra a construção da torre e a confusão das línguas, começa afirmando:

"E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala"

Mais adiante, o versículo 6 reforça a ideia:

"E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua"

O problema aparente surge porque o capítulo anterior, Gênesis 10, já descreve os descendentes dos filhos de Noé organizados em grupos (povos) e territórios, e ao final de cada seção menciona que eles estavam distribuídos segundo as suas línguas (versículos 5, 20 e 31).

Se os capítulos forem lidos como uma cronologia exata, a sequência parece tensionada:

Gênesis 10

  • Povos já distribuídos.
  • Nações já estabelecidas.
  • Línguas já diferenciadas.

Gênesis 11

  • Toda a terra tinha uma só língua.
  • Ocorre Babel.
  • As línguas são confundidas.
  • Os povos são espalhados.

Uma leitura literária alternativa entende que Gênesis 10 apresenta o estado já formado das nações, enquanto Gênesis 11 retorna para explicar como surgiu a diversidade linguística e a dispersão dos povos. Em termos modernos, seria algo como:

  • Primeiro: “Os países e idiomas ficaram distribuídos assim…”
  • Depois: “Agora vou explicar por que eles passaram a falar idiomas diferentes.”

Nessa perspectiva, a tensão entre os capítulos não precisa ser tratada como uma contradição necessária. Ela pode ser entendida como um caso de recapitulação narrativa: primeiro o narrador apresenta o quadro geral (nações já diferenciadas por línguas) e depois relata o acontecimento que teria produzido esse quadro (a construção da torre).

No debate acadêmico, a questão costuma ser formulada de outro modo. Alguns estudiosos defendem que Gênesis 11 procura explicar como surgiu a diversidade de línguas e povos apresentada no capítulo 10; outros entendem que os capítulos preservam tradições literárias distintas posteriormente reunidas por um redator. Em ambas as abordagens, a tensão textual é reconhecida, mas não é normalmente tratada como simples prova de autocontradição do autor.

Conclusão do autor

Os exemplos analisados mostram que a narrativa bíblica nem sempre segue uma cronologia linear ou se preocupa em registrar todos os detalhes de um acontecimento no momento em que ele é mencionado. Em diferentes passagens percebemos um padrão recorrente: o narrador frequentemente apresenta um resumo dos acontecimentos antes de fornecer detalhes adicionais. Isso não resolve todas as dúvidas que um leitor moderno possa ter, mas nos lembra da importância de ler o texto com atenção, permitindo que a própria narrativa indique como suas informações estão organizadas.

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